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Autoria

Cynthia Oliveira

Jornal O Tempo

Categoria

Conservação

Data de publicação

26 abril, 2026

ONG mineira preserva araras-azuis-de-lear em Canudos e impulsiona turismo no sertão

Hoje, mais de 2.500 indivíduos da espécie em risco de extinção vivem em região da Caatinga

LINK COMPLETO DA MATÉRIA DO JORNAL O TEMPO: CLIQUE AQUI.

JORNALISTA E IMAGENS: Cinthya Oliveira

CANUDOS (BA) * – As estátuas de araras azuis colocadas na entrada do município de Canudos, no sertão da Bahia, mostram que o lugar não é mais só conhecido por sua história de utopia, resistência e guerra. Aos poucos, a comunidade local de 16 mil habitantes vê o turismo crescer entre amantes da natureza, que vão até a Estação Ecológica de Canudos para assistir, de pertinho, o balé dos voos de centenas de araras-azuis-de-lear entre belíssimos paredões de arenito onde as aves montam seus ninhos.

Estima-se que cerca de 2.500 aves dessa espécie endêmica do Raso da Catarina – uma região da Caatinga dividida entre quatro municípios baianos – estejam por ali hoje. Mas nos anos 1990, eram apenas 36 indivíduos e a espécie não desapareceu da natureza por conta de um rigoroso trabalho de preservação.

A Fundação Biodiversitas – organização não governamental criada em Belo Horizonte para desenvolver trabalhos de preservação ambiental e científicos – adquiriu, em 1993, a área de 1.400 hectares onde estão localizados os paredões de arenito e proibiu a entrada no local de qualquer pessoa que não tivesse relação com o trabalho de conservação da natureza. Sem a ação de traficantes de aves e outros agressores, as aves tiveram liberdade para se alimentar dos frutos das palmeiras de licuri e montar seus ninhos nas cavas dos paredões de arenito.

A abertura para o público se deu em 2013 e visitas guiadas passaram a ser realizadas dentro da estação ecológica. Mas não é possível bater lá na porta e querer entrar, sem um aviso prévio. Antes é preciso fazer um cadastro, pagar pela entrada – R$ 550 para estrangeiros e R$ 330 para brasileiros – e seguir todas as instruções dos guias para não incomodar as aves.

Mesmo que o preço do passeio possa parecer salgado para os padrões brasileiros, é crescente o interesse pela visitação, especialmente entre observadores de pássaros. Afinal, não é sempre que é possível observar muitos indivíduos de uma espécie rara em um ambiente deslumbrante, em meio ao semi-árido.

“Mobilizamos parceiros internacionais e com recursos deles a gente comprou a primeira área de 200 hectares e fechamos por 20 anos. Isso, sem dúvida, foi uma decisão acertada, mas ao mesmo tempo, foi uma atitude antipática. Durante 20 anos, vivemos em guerra com a comunidade daqui. Porque todo mundo sabia que tinha uma arara, que todo mundo tava o mundo inteiro tava falando, mas ninguém podia visitar”, explicou Jorge Velloso Vianna, superintendente da Fundação Biodiversitas.

Segundo ele, a entidade está estabelecendo uma parceria com a prefeitura para que todo morador de Canudos que queira conhecer o paredão das araras possa entrar na Estação Ecológica de maneira gratuita, após um cadastramento. No ano passado, a reserva ambiental recebeu 200 estudantes, especialmente da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que possui um campus na cidade.

De acordo com Vianna, a arara já atrai mais turistas para a cidade do que o interesse por Antônio Conselheiro. “Entre os turistas, 40% se hospedam na reserva e 60% se hospedam na cidade. A gente sempre faz questão de falar ‘olha, tem a tiazinha ali que faz uma comida maravilhosa’, a gente quer que a comunidade ganhe dinheiro com o turismo”.

Uma arara diferente

Com uma plumagem azul cobalto e uma mancha amarela próxima ao bico, bem característico da espécie, a arara-azul-de-lear foi descrita por Charles Lucien Bonaparte (zoólogo sobrinho de Napoleão Bonaparte), em 1856, a partir de um exemplar empalhado no Museu de Paris. O nome da ave é uma homenagem a Edward Lear, um pintor e escritor britânico que desenhou a arara em 1828.

Na verdade, vários exemplares da ave foram enviados à Europa no início da década de 1820, mas ninguém sabia ao certo qual era o local de origem da arara-azul no Brasil. A resposta definitiva só veio em 1978, quando o ornitólogo e naturalista alemão Helmut Sick realizou uma expedição pelo país para encontrar as origens de aves em processo de extinção. Saindo do município de Euclides da Cunha, ele investigou o sertão e descobriu os paredões que eram usados pelas aves para desenvolver seus ninhos. Era um lugar chamado Toca Velha, que logo viria a ser transformado em estação ecológica.

As araras-azuis-de-lear têm características muito específicas da espécie, como colocar os ninhos nas cavidades dos paredões (enquanto as outras araras costumam pôr ovos em cavidades de altas árvores). Elas também formam casais monogâmicos, porém, não necessariamente fiéis. “Existem ninhos em que tem uma ninhada composta de ovos de pais diferentes. Existem casais homossexuais e relações afetivas de comportamento parental”, explicou Érica Pacífico, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do Grupo de Pesquisa e Conservação da arara-azul-de-lear. Segundo ela, a pesquisa agora vai estudar as relações de parentesco entre as aves através de informações de DNA.

De acordo com a pesquisadora, há uma estimativa de que o próximo censo das araras indique que a população subiu para 3.000 indivíduos, mas dificilmente esse número deve continuar subindo. “Conforme a população cresce, aumenta o número de pares reprodutores e eles vão ocupando essas cavidades. Então, por exemplo, quando eu comecei a estudar o espaço tínhamos sete ninhos e hoje tem 35 ninhos naquele parede. Em algum momento esse paredão vai se saturar, né? E aí esse seria um controle natural do tamanho da população reprodutiva”, argumentou.

Além da limitação de espaço, outras três questões interferem na sobrevivência da espécie: a disponibilidade de comida (licuri), a disputa de território com colmeias de abelhas africanas e o aumento de redes de transmissão elétrica (muitas aves morrem eletrocutadas ao encostar nos fios).

Para que a população das araras-azuis não fique concentrada do Raso da Catarina, correndo o risco de serem exterminadas caso haja uma grande alteração nessa região (uma grande tragédia climática, por exemplo), Érica defende que a preservação seja estendida para outras regiões onde a ave tenha sido endêmica no passado.

A histórica Canudos

Estamos falando aqui da terceira cidade chamada de Canudos. A primeira, nomeada como Arraial de Belo Monte por Antônio Conselheiro, foi destruída pela quarta expedição do Exército brasileiro em 1897, enquanto a segunda foi erguida próximo às ruínas da vila incendiada, mas inundada por conta da construção de um açude em 1969, durante o governo militar.

Canudos é um município novo, emancipado em fevereiro de 1985 – até aquele momento, era Cocorobó, distrito de Euclides da Cunha. As ruas da pequena cidade de 18 mil habitantes são bem feitas, planejadas, com novas construções por todos os lados. Há boa estrutura de restaurante, hotel e mercado para atender os turistas.

Mas vale lembrar que é uma cidade de Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) baixo, ficando na 326ª colocação entre os 417 municípios baianos. A principal atividade econômica da cidade é a produção de banana, além da agricultura de subsistência e criação de cabras. E embora seja uma cidade por onde passam duas rodovias, é considerada muito tranquila pela população local.

 

A história de Antônio Conselheiro e seus seguidores é valorizada de diferentes formas no município. Logo na entrada, um letreiro recebe os visitantes: “Terra do Conselheiro”. No centro da cidade, está um Memorial Antônio Conselheiro, com exposição fotográfica e relíquias encontradas nos trabalhos arqueológicos realizados nos locais de batalhas durante a guerra.

 

Também é possível conhecer mais a história do confronto visitando o Parque Estadual de Canudos, que abriga alguns locais históricos importantes, como o Morro da Favela, ponto crucial para que os integrantes do Exército conseguissem ter uma visão melhor sobre o Arraial de Belo Monte (hoje inundado), ou a Fazenda Velha, onde morreu o coronel Antônio Moreira César (1850-1897), comandante da terceira expedição. O parque é mantido pela Uneb e conta com historiadores que não só aprenderam a história por meio dos livros – são descendentes de “conselheiristas”, de sobreviventes do massacre.

 

As histórias orais colhidas ao longo de décadas no século XX foram fundamentais para o processo de ressignificação da imagem de Antônio Conselheiro que vem sendo desenvolvido desde a redemocratização. Os depoimentos de sobreviventes mostram que Conselheiro não era o louco fanático descrito em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, mas sim um homem que sabia falar a linguagem simples do povo e tratar de questões sociopolíticas que faziam parte daquele cotidiano sertanejo.

Mas quem chega à entrada de Canudos se depara com duas referências diferentes da história de Antônio Conselheiro. Desde março, foram colocadas, em frente ao portal da cidade, duas estátuas gigantes de araras-azuis-de-lear, feitas pelo artista baiano Nilton Santos. Além disso, o artista dispôs ali uma réplica do meteorito do Bendegó, encontrado em 1784 naquela região. O original integra o acervo do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista e não foi destruído pelo histórico incêndio de 2018.

“A gente acabou de inaugurar e já estou recebendo fotos de gente do mundo inteiro que passou por aqui e tirou fotos com as araras”, disse o artista, enquanto atuava nos detalhes finais de sua obra, que ficará completa após a plantação de duas palmeiras de licuri ao lado das estátuas.

 

Mais três reservas

A Fundação Biodiversitas nasceu em 1988 com a intenção de desenvolver projetos de conservação da natureza a partir de conhecimentos científicos. O primeiro trabalho da entidade foi publicar a primeira lista vermelha da fauna brasileira, com as espécies que corriam risco de extinção. O segundo foi a criação de uma reserva natural em Canudos.

Hoje, além da bem-sucedida Estação Ecológica de Canudos, a fundação conta com outras três reservas:

  • Reserva Particular do Patrimônio Natural Mata do Sossego (Simonésia, MG), para a preservação do muriqui-do-norte (maior primata do Brasil);
  • Reserva Particular do Patrimônio Natural Mata do Passarinho (Jordânia, MG), para a preservação do entufado-baiano (uma das aves mais ameaçadas do mundo)
  • Reserva ninho da Tartaruga (Tombos, MG), para a preservação do o cágado-de-hogei (ou cágado-do-paraíba)

Desde 2019, a Fundação Biodiversitas conta com o patrocínio da Seguros Unimed, o braço ligado a serviços de seguro dentro do ecossistema de saúde de cooperativas espalhadas por todo o país. De acordo com Pedro Nabuco, diretor executivo de Estratégia, Pessoas, Processos, Projetos e Tecnologia da Informação da seguradora, o investimento em preservação é fundamental em um momento em que há um impacto generalizado provocado pelas mudanças climáticas.

“Não há como gerenciar saúde se não for uma consciência de que existe uma interdependência gigantesca da questão da saúde animal, da saúde vegetal, do clima, do meio ambiente, do ar que a gente respira, da onde a gente vive. Ou seja, que na verdade isso tudo é um ambiente complexo onde tá tudo interconectado”, afirmou o diretor. “Essa é uma relação de um com capacidade de financiamento e outro com conhecimento científico, disposição, vontade, ativismo e um querer genuíno de gerar impacto”.

* A repórter viajou a convite da Seguros Unimed

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