Faça uma doação Seta
Página anterior

Autoria

Kátia Okumura

Assessora de Comunicação da Seguros Unimed. Doutoranda em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela USP

Categoria

Conservação

Data de publicação

27 abril, 2026

O canto das araras

Vivenciei uma grande realização profissional para uma defensora dos direitos dos animais. Conheci de perto o projeto de sustentabilidade ambiental da Biodiversitas e sua Estação Biológica de Canudos (EBC), que tem como princípio a proteção de todas as espécies que lá habitam.

MATÉRIA COMPLETA: CLIQUE AQUI.

Vivenciei uma grande realização profissional para uma defensora dos direitos dos animais. Conheci de perto o projeto de sustentabilidade ambiental da Biodiversitas e sua Estação Biológica de Canudos (EBC), que tem como princípio a proteção de todas as espécies que lá habitam. Mais do que isso, visa a garantir que o ecossistema atue como tem de atuar, com todas as suas conexões e com todos se respeitando mutuamente. A grande estrela é a arara-azul-de-lear, que com sua beleza atrai para a região visitantes do mundo todo na expectativa de vê-la de perto, mas que acabam se deparando com uma paisagem arrebatadora, diversos animais e uma comunidade muito unida. Seu nome vem do pintor e escritor britânico Edward Lear, que a retratou pela primeira vez em 1828.

Curiosidade: Lear foi citado em “Paperback Writer”, The Beatles –“It’s based on a novel by a man named Lear” (É baseado em um romance de um homem chamado Lear).

Estive por três dias, em um grupo de 18 pessoas, visitando esse habitat. Juntos, conhecemos a história de Canudos, sua força e desafios, que ainda hoje se fazem presentes. Desafios que aparecem em coisas simples do nosso dia a dia e que impactam aquele ecossistema. Aparecem diante da dificuldade de um professor para implantar seu programa de pós-graduação que propõe adentrar ainda mais nas especificidades locais, levando mundo afora a história do município. E aparecem ainda no combate diário ao tráfico de animais silvestres, estimulado pela crueldade de pessoas que simplesmente querem ter uma arara-azul-de-lear presa em sua sala, como um troféu.

Saímos às 5h50 da manhã, do Aeroporto Internacional de Guarulhos, rumo a Petrolina, Pernambuco. Antes da viagem, preocupações urbanas típicas: madrugar, não ter água quente, calor excessivo, bichos picando, pererecas no banheiro, andar no mato. Com essas conjecturas, embarcamos. O voo é rápido, apenas 2h30. Chegando em Petrolina, 200 quilômetros de estrada nos aguardavam, muitos dos quais apenas com as nossas duas vans na estrada. A paisagem vai mudando: surgem os cactos, árvores espinhosas. Em alguns trechos, canaviais e cafezais. O verde mistura-se com o marrom das folhas secas, com uma terra vermelha. A mistura reluz ao sol, transformando a paisagem em pintura.

Aqui e ali vemos bois, vacas, um cavalo sozinho comendo mato, e muitas, muitas cabras. Elas nos encaram, com seu olhar curioso, como se perguntassem: Quem é você? E fogem diante da mera aproximação. Espertas.

A arara-azul-de-lear, que um dia quase desapareceu, é considerada o símbolo de um Sertão que resiste e floresce. Parte desta história do Brasil conhecemos no Campus Avançado de Canudos da UNEB e no Memorial Antônio Conselheiro. Lá vimos a exposição Fio invisível, da artista brasileira Adriana Camargo, sobre as mulheres de Canudos. A obra já passou pela Feira Literária Internacional de Canudos, uma das maiores do Nordeste. Ouvimos histórias de quem é descendente direto de conselheiros, como Paulo Régis, que nos levou até o Museu da Vó, que foi a casa de sua avó, Dona Izabel

A Fundação Biodiversitas nasceu em 1989 e tem três mil hectares protegidos nos biomas Mata Atlântica e Caatinga. O EBC é um deles, com foco, principalmente, na conservação da arara-azul-de-lear. Segundo censo de 2024, o local abriga mais de 2,5 mil desses indivíduos na região. Há 30 anos, eram apenas 50. Há, porém, muito mais para ser visto, ouvido e sentido. Vi papagaios, periquitos, urubu-rei, lagartixas gigantes, insetos. Vi flora que não conhecia de perto, como o mandacaru, a favela (que dizem ter dado origem ao termo favela que conhecemos), comi licuri (os coquinhos que alimentam as araras), umbu, juá. Tudo direto do pé.

A Guerra de Canudos foi um conflito entre o Exército brasileiro e a comunidade de Belo Monte, liderada por Antônio Conselheiro, no fim do século XIX. Formada por sertanejos que almejavam outra forma de viver, Canudos passou a ser vista como ameaça, justamente por sua cooperação e autossuficiência. Após sucessivas expedições, o arraial foi destruído pelo próprio Estado, com a morte de 25 mil pessoas.

Décadas depois, a região sofreria outra intervenção com a construção do Açude Cocorobó, de 1951 até 1969, e a consequente inundação do vale em que ficava a histórica Canudos. O que era para ser uma solução hidráulica, que visava garantir a sobrevivência na região e conter migrações forçadas por meio de grandes reservatórios, significou represar as águas do Rio Vaza-Barris até que elas subissem e cobrissem completamente o solo original, as ruínas de Belo Monte e o vilarejo que havia se reconstruído no local, a segunda Canudos. Como analisa Anderson Henrique Ferreira Marinho, em sua pesquisa de mestrado (FGV, 2022), não seriam mais as instituições da engenharia que atuariam em Canudos, mas outras forças federais, na tentativa de evitar que o massacre contra Belo Monte voltasse à pauta. “Ou seja, era preferível que Belo Monte continuasse submersa, simbolicamente, já que materialmente eram as secas e a baixa do rio Vaza-Barris que ditavam esse tipo de emergência”, reforça.

No documentário “Um Sino Dobra em Canudos” (1962), de Carlos Gaspar, somos apresentados a uma das personagens reais dessa história.

“Hermenegilda. De que? Ela não se lembra mais. Dona Hermenegilda é mais do que ninguém uma solitária na desolada paisagem de Canudos. Ali nasceu e os pais morreram. Casou e o marido morreu. Teve filhos e os filhos morreram. Não tem mais ninguém”, diz o locutor funebremente.

O filme se encerra com os estragos na memória que a inundação do Açude de Cocorobó irá fazer. “Até os meus mortos vão se afogar. Não vou rezar mais em suas sepulturas. Não vou descansar ao lado dos meus”, diz a senhora de 74 anos que tem todos os seus entes enterrados no Cemitério da Velha Canudos.

Depois da guerra e da inundação, a família de Dona Izabel foi a primeira a morar na Nova Canudos, e ela passou anos reunindo objetos, vestígios, histórias, recebendo pesquisadores e ajudando a localizar sítios históricos. O museu mantém muito do que era. O piso, as paredes, os objetos. É aqui que seu neto recebe os visitantes e conta passagens que se misturam com a sua própria origem. Chama a atenção o fato de que as mulheres eram forçadas a se prostituir fora da região. Paulo Régis reforça que as que não se entregaram na época, quando Belo Monte estava sob chamas, se jogaram no fogo com os filhos nos braços.

Mas, como dito anteriormente, a população local é persistente. Sua história segue viva em rodas de conversas, em cursos de arqueologia – lá há importantes sítios, na arte e, claro, na memória que, apesar de todos os esforços contrários, não desapareceu.

Durante o dia, recebíamos a visita das cabras curiosas. À noite, de um cachorrinho cinza. Dormimos ouvindo o coaxar dos sapos e de outros bichos que meu ouvido urbano não permitiu identificar. Fomos muito bem-recebidos por toda a equipe da Biodiversitas. Ouvimos histórias, causos e percebemos o orgulho legítimo de fazer parte de tudo aquilo. “Tudo o que fazemos aqui é bem simples, mas com muito carinho. Acordo bem cedo para buscar as melhores frutas, os pães, tudo para deixar o café da manhã bem gostoso. Esse foi o meu primeiro emprego e tenho muito orgulho de fazer parte dessa comunidade, mais ainda quando identificam que eu sou uma das pessoas que cuidam das araras”, conta, emocionada, a gerente da Biodiversitas, Tania Maria, responsável pela estação que visitamos.

A sensação era de estar em uma casa de parente do interior. Uma mesa grande que servia para as refeições e para as conversas sobre tudo o que estávamos vivendo. Muito rapidamente, o acolhimento dos moradores nos contagiou e estávamos todos rindo, descontraídos, trocando experiências do Sertão.

A arara que voa espalha as sementes do licuri, garantindo seu manejo e a fluidez daquele ecossistema. A ameaça surge quando há excessiva intervenção humana. Mesmo no que aparentemente pode ser bom, como a chegada da luz elétrica em algumas regiões que ainda não tinham esse acesso. Fios e postes podem confundir e eletrocutar as aves. As abelhas também invadem os buracos que servem de ninho para as araras nos paredões de pedra, afastando-as e impedindo sua reprodução. Vale o alerta de que o problema não são as abelhas, mas a economia em torno do mel. Das muitas coisas que aprendemos nessa viagem, uma ficou muito clara: tudo está interligado. O que fazemos aqui, se reflete lá. Isso ainda não entendemos completamente.

Kátia Okumura, Assessora de Comunicação da Seguros Unimed. Doutoranda em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela USP.

Nosso compromisso é preservar a biodiversidade brasileira!

Faça sua doação Seta